Criminosos passam a atuar transferindo dinheiro da vítima via Pix

Durante os sequestros-relâmpagos, as vítimas já chegaram a perder R$ 100 mil

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O Pix foi criado com a intenção de facilitar transações e modernizar antigos sistemas bancários, mas criminosos estão se aproveitando do serviço para agirem de má fé e aplicarem golpes em que usa o sistema. Em entrevista cedida à BCC News Brasil, Tarcio Sever, que é delegado da Divisão Antissequestro do Garra Dope da Polícia Civil relata que o número de sequestros-relâmpago, crime considerado adormecido, disparou após a implantação do Pix no Brasil.

Há algumas semanas, os criminosos fizeram uma vítima que levou um golpe na cabeça, foi amarrada, teve o celular roubado e, após três horas, mais de R$ 100 mil saíram da conta dela em transferência via Pix. Severo acrescenta que há quadrilhas especializadas em outros crimes que estão ‘migrando’ para roubos envolvendo a ferramenta eletrônica.

É possível observar criminosos especializados em outros segmentos, como roubo e furto de condomínio, que passaram a aproveitar a oportunidade para fazer o sequestro-relâmpago. Eles perceberam que o Pix permite que eles consigam transferir uma grande quantidade de dinheiro num período curto de tempo. Desta forma, eles mantêm a vítima detida e tiram uma vantagem significativa, afirma o delegado.

Por se tratar de um sistema relativamente novo, a polícia ainda não consegue comparar mês a mês para precisar um diagnóstico completo. Garra pontua que o crime de sequestro-relâmpago cresceu 100% em relação ao mês em que o Pix foi inaugurado. As quadrilhas formadas para esses tipos de crimes são formadas por técnicos de diferentes áreas e são extremamente especializados.

Escolhendo a vítima

Antes do sequestro-relâmpago acontecer, é feito todo um estudo de caso para selecionar a vítima. Os criminosos avaliam as pessoas, fazem rondas em motos, carros e até mesmo a pé em bairros nobres. As vítimas são vigiadas por um longo período de tempo até que elas sofram o ataque. Após investigadas, as vítimas vão para as mãos de outros membros da quadrilha, que ficam responsáveis por atacar, ameaçar e mantê-las em cárcere privado.

Severo diz que mesmo com a frequência desse novo modelo de ataque, não é tão fácil prender esses criminosos, ele diz que já fez reuniões com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e com o Banco Central para solicitar que as equipes de fraudes monitorarem e informem a polícia sobre algumas transações suspeitas. O Banco Central é responsável pela regulação das transferências bancárias e tem o poder de criar novas regras para o Pix.

O banco tem que ter uma equipe de antifraude que detecte isso. Um cliente que não costuma movimentar dinheiro naquelas quantias, o banco deveria habilitar uma trava até checar essa informação para saber se é realmente o cliente dela que está fazendo aquela transação. O banco falha na prevenção e deveria impor ao menos um bloqueio temporário de duas horas na conta em casos como esses, observa.

Operações rastreáveis

De acordo com o Banco Central, por seu desempenho tecnológico, todas as operações com o Pix são 100% rastreáveis, o que permite a identificação das contas recebedoras de recursos produtos de golpe/crime, permitindo a ação mais incisiva da polícia e da justiça, o que não acontece com saques em caixas eletrônicos, por exemplo. Dados recentes do Pix mostram haver suspeita de fraude em apenas 0,001% das transações de Pix. Essa fração é ínfima e se mantém constante ao longo do tempo.

Em nota, o Febraban informa que as vítimas que passarem por isso devem registrar um boletim de ocorrência e procurar imediatamente seu banco através de um de seus canais de atendimento disponíveis para receber as orientações como deverá proceder. O Banco Central informa que o Pix possui três características que previnem a transferência de grandes valores por meio de golpes ou sob coação.

A primeira dela são os motores antifraude, por meio deles, é possível identificar transações atípicas, com isso, ocorre o bloqueio e inicia o processo de análise suspeitas por 30 minutos durante o dia ou 60 minutos à noite. Os clientes também podem estabelecer limites máximos de valores para transações de acordo com o perfil de cada usuário, titularidade da conta, canal de atendimento e procedimento para iniciação. A terceira é a possibilidade de diminuir os limites pelo app do banco.

A facilidade de criar diversas contas e gerar uma chave nova para cada uma delas, acelera o processo de sacar o valor do dinheiro roubado, sem deixar pistas para que a polícia consiga rastrear os criminosos. Severo revela que conseguem rastrear onde o saque foi feito, mas muitas vezes não conseguem chegar a tempo de prender as pessoas. As pessoas que cedem as contas para fazer esses saques são investigadas como coautores do crime.

Que conta é essa?

Muitas vezes vamos na casa dessas pessoas e elas dizem que apenas sacaram o dinheiro que caiu na conta delas via Pix de um conhecido. Elas falam que não sabiam que a origem daquela quantia era de uma pessoa sequestrada e chegam a falar que a conheceram numa tabacaria, mas dizem que não tem nenhum contato dela, como telefone, nem mesmo são amigas em nenhuma rede social, informa Severo,.

O delegado informa que o Banco Central costuma reembolsar as vítimas que passam por isso. Quem tem seguro no cartão recupera o dinheiro com mais facilidade. Quem não tem, precisa aguardar a conclusão do procedimento administrativo aberto pelo banco. Ele aconselha que as vítimas façam um protocolo de reclamação no site do Banco Central, algo semelhante a um Procon dos bancos.

Severo explica que quando a vítima vai para um cativeiro e quem paga o resgate é outra pessoa e está enquadrada no artigo 159 do Código Penal. No sequestro-relâmpago, a própria vítima é quem paga para ser solta, artigo 158. No início do ano passado, a Secretaria da Segurança Pública apura que em todo o estado de São Paulo, foram registrados quatro sequestros. Em 2021, no mesmo período, foram registradas oito ocorrências, um aumento de 100%.