Selic pode se transformar em freio para economia neste ano

Entre instituições que integram o grupo dos Top 5 que mais acertam as projeções de curto prazo, há quem calcule que a Selic pode subir acima de 8% em 2022

3d growth chart diagram with shadow

O tom mais duro assumido pelo Banco Central (BC) conseguiu controlar as expectativas de inflação de médio prazo no mercado, que ficaram estáveis por duas semanas após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Entretanto recém apostas de juros em níveis ainda mais altos e que já flertam com patamares acima do neutro, ou seja, não estimulativos.

Entres instituições que integram o grupo dos Top 5 que mais aumentam as projeções de curto prazo, há quem calcule que a Selic pode subir acima de 8% em 2022. A maioria acredita em um ciclo que termine neste ano e leve a taxa a um patamar entre 7% e 7,5%.

Macro Capital, que trabalha com Selic em 7% no fim do ano, nível que seria alcançado após duas altas de um ponto percentual em agosto e em setembro, uma de 0,50 ponto em outubro e uma última de 0,25 ponto em dezembro.

Nilson Teixeira, sócio da gestora, afirma que a alta de um ponto pressupõe um quadro de inflação mais negativo e, consequentemente, probabilidade alta de o BC elevar para um nível superior a 6,5%.

Incertezas

Destacando às incertezas elevadas que permanecem no cenário, especialmente relacionadas às expectativas de inflação. Teixeira recorda que, em agosto de 2020, as projeções do mercado apontavam um cenário de inflação bem distante daquele que se materializou.

Ao analisar a comunicação recente adotada pela autoridade monetária, o economista nota que três fatores se sobressaíram e devem determinar as futuras decisões: as expectativas de curto prazo dos participantes de mercado, o comportamento da inflação corrente e sua composição, e, as projeções de mais longo prazo, especialmente as de 2022.

Com uma projeção de inflação de 4,1% em 2022, bem acima do centro da meta, a BRDR Asset também está no time dos que acreditam em uma elevação de um ponto do juro básico em agosto, com taxa de 7,25% no fim do ano. Antes da reunião do Copom, a gestora acreditava que a taxa básica encerraria o ano em 6,5%, mas essa aposta mudou após a divulgação da ata do encontro, em que o colegiado expôs a discussão de uma aceleração no ritmo de alta já em junho.

Riscos

Ao ver riscos de uma inflação de serviços mais puxada, o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, espera que a Selic termine o ano em 7,25% e vê mais dois aumentos de 0,50 ponto na taxa em 2022, o que levaria o juro básico a 8,25% no fim do atual ciclo.

Para Chermont, quase todos os riscos empurram a inflação para cima e, com a perspectiva de um crescimento econômico forte também no próximo ano, o risco é de que haja mais inflação, e não menos. No cenário da Quantitas, o PIB do Brasil crescerá 5,7% neste ano e 2,8% em 2022.

Em levantamento da BGC Liquidez com 16 países emergentes, o Brasil tem a segunda menor taxa de juro real ex-post, que está negativa em 4,56% e fica à frente somente da Polônia, onde o juro real está em -4,60%. Chile (-3,15%), Malásia (-2,95%) e Índia (-2,30%) completam a lista dos cinco primeiros.

Velocidade

Para Ermínio Lucci, diretor executivo da BGC, a velocidade rápida de reabertura, a mescla de poupança acumulada durante a pandemia com problemas nas cadeias de suprimento e o aumento nos preços das commodities fizeram com que a inflação global acelerasse e acertasse em cheio, principalmente, os emergentes.

Segundo Lucci, o BC percebeu que pode ter deixado a inflação correr demais e, por isso, já adotou uma linguagem mais dura na reunião de junho. A BGC trabalha com a Selic em 7,5% neste ano.