Alta de juro deve atrasar recuperação na economia

A capacidade ociosa da economia é prevista apenas para 2022

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O aperto monetário previsto pelo mercado até o fim do ano e a consolidação fiscal em curso deverão fazer com que demore mais tempo que o inicialmente previsto pelo Banco Central (BC) para que a economia volte a operar a pleno vapor.

Nesta sexta feira, foi divulgado o Relatório de Inflação (RTI) de março, prevendo a plena ocupação da capacidade ociosa da economia apenas em 2022. Quando fecharia o hiato do produto (medida de ociosidade da economia), que está entre 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre deste ano.

O ritmo da retomada da atividade é mais lento do que o previsto no Relatório de Inflação de março, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC iniciava o ciclo de aperto monetário.

Resultados

No documento, o BC afirmou que no cenário-base, o hiato vai fechando ao longo do tempo, chegando a níveis próximos de neutros em 2022, embora de forma mais lenta que no cenário do relatório anterior, em função principalmente do aumento na trajetória da taxa Selic da pesquisa Focus e da melhora dos resultados fiscais.

A maior diferença é que, até março, o mercado previa a chamada normalização parcial dos juros, que traria a taxa básica a 4,5% ao ano, mantendo algum grau de estímulo à economia, neste momento, o cenário é de retirada total dos estímulos monetários.

Ainda assim, o mercado financeiro passou a prever um déficit primário menor, o que mostra uma estabilização mais forte semelhante com o resultado fiscal observado no ano passado.

Atualidade

Fabio Kanczuk, diretor de política econômica do Banco Central, relatou que não iria especificar em que trimestre de 2022 a capacidade ociosa da economia deverá ser preenchida, mas tudo indica para o fim do ano que vem.

No relatório de março, o BC projetava o preenchimento em 2022, mas Kanczuk disse que o ritmo mais forte de alta de juros então adotado.

Para Kanczuk, o Banco Central está mais confiante que os economistas privados sobre quando a capacidade ociosa seria preenchida. O diretor relatou que muitos no mercado preveem isso apenas para 2023.

Estimativas

A demora para reverter a ociosidade da economia ocorre apesar de os prognósticos do Banco Central para a alta do PIB neste ano terem se tornado mais positivos. O relatório cresceu de 3,6% para 4,6% a projeção para a expansão da economia.

Até março, o Banco Central se mostrava mais positivo do que o mercado financeiro, que previa 3,2% para o PIB, porque constatava maior força da atividade no segundo trimestre.

Agora, o BC mostra um ritmo menos forte que os economistas privados, das quais estimativas estão em 5%, com tendência de alta.

Riscos

O relatório destacou uma série de riscos que, na opinião do Banco Central, podem interferir a retomada, entre eles, uma eventual concretização dos riscos de uma crise hídrica no país e as chances de surgimento de uma nova cepa da covid.

No entanto, o Banco Central deixou de considerar uma eventual frustração da atividade econômica como um risco importante que possa levar a uma inflação mais baixa que a projetada em 2022.

Atualmente, o BC estima uma inflação de 3,5% para o ano que vem, exatamente na meta. Mas admite que riscos fiscais podem fazê-la superar esse percentual.

Juros

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, negou que o receio de surpreender o mercado tenha levado o Copom a não intensificar a alta de juros em reunião na semana passada.

Na oportunidade, o comitê aumentou os juros em 0,75 ponto percentual, de 3,5% ao ano para 4,25% ao ano, e sinalizou um movimento da mesma magnitude na próxima reunião, em agosto.

Entretanto, relatou que poderia estimular o ritmo, dependendo das evoluções das expectativas de inflação e da persistência da inflação.