Lançamento do primeiro satélite brasileiro coloca em xeque negócios de Alcântara

Alardeada posição geográfica do CLA terá pouca vantagem competitiva, se o empresariado brasileiro permanecer na zona de conforto

Amazônia-1, primeiro satélite 100% brasileiro, chega ao espaço para ser vigilante da floresta (Foto: Reprodução)

TAGIL OLIVEIRA RAMOS E ANANDA MAIA

O lançamento do primeiro satélite com tecnologia 100% brasileira, realizado na Índia, no domingo (28), traz um alerta para os empresários brasileiros e maranhenses: a propagada vantagem geográfica de Alcântara terá pouca importância para o mercado, se os possíveis empreendedores da região continuarem na zona de conforto atual.

Apesar do ufanismo das autoridades governamentais, o empresariado ainda se mantém de pé atrás, por duas fortes razões: o investimento de entrada é alto e o retorno, de longo prazo. A arena, portanto, é para pesos-pesados e não há espaço para amadores. 

Casa de ferreiro 

Trocando em miúdos: mesmo que quisesse, o atual Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) não teria condições tecnológicas ou logísticas para lançar o Amazônia-1. O CLA informou à reportagem que “o foguete empregado para o lançamento do Amazônia-1 possui uma categoria mais elevada do que o CLA hoje é capaz de operar, em função das dimensões e da estrutura da Plataforma de Lançamento”.

Em Alcântara, a plataforma permite, no máximo, realizar um lançamento do porte do VLS (com 19,7 metros de altura), segundo informações da Fundação Planetário do Rio de Janeiro. O foguete que colocou o Amazônia-1 em órbita foi o Polar Satellite Launch Vehicle (PSLV), de 44,4 metros (2,25 vezes maior). É preciso levar em conta que o artefato indiano levou mais 18 satélites dentro dele. 

Outro fator a considerar: a famigerada economia de combustível (da ordem de 30%, promovida pela proximidade do equador) tem mais sentido para voos com cargas maiores. Ou seja, é ideal para lançar foguetes que carregam muitos satélites, por exemplo. Nesse aspecto, o CLA precisaria fazer um posicionamento de marketing mais atrativo dentro do seu segmento e não simplesmente se ater a ofertas básicas. 

Avanço lento

Depois de conturbada aprovação no Congresso, o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas não é suficiente para garantir ofertas competitivas ao mercado. É preciso agora investir pesado para definir uma oferta competitiva ao mercado. 

Na ponta do lápis, nem o governo brasileiro encontrou vantagens para lançar da plataforma do Maranhão. A proposta do Centro Espacial de Satish Dhawan, na Índia, foi muito mais viável, tanto comercial como logisticamente.

Esforço nacional

Há cerca de um ano que a Agência Espacial Brasileira (AEB) tenta, sem sucesso, “vender” para empresas estrangeiras lançamentos a partir do CLA. O nicho possível a ser explorado é o de microssatélites. 

Sem tradição comercial, o player CLA/AEB não tem marca ou posicionamento no nicho aeroespacial. As possibilidades do Brasil fechar um negócio desse porte, num mercado altamente competitivo, ainda são remotas, embora tenha sido ventilado interesse de empresas internacionais de grande porte (sem confirmação oficial). 

Mas existem negócios rentáveis para os empresários brasileiros, não somente em área de alta tecnologia. Os investidores devem ficar atentos a oportunidades para fornecimento de logística, energia, propelentes, querosene, oxigênio e hidrogênio, dentre outras possibilidades. 

Esforço maranhense 

Por aqui, as coisas estão andando. Devagar ainda, mas com algumas ações significativas. Nesta semana, uma comitiva de integrantes das entidades empresariais (Fiema, Faema, Fecomércio, ACM e Sebrae) visita Alcântara para coletar informações para a elaboração do plano de ação a ser desenvolvido para a região. 

“Como o Maranhão não participa desse ambiente de tecnologia, temos que preparar as nossas empresas para esse novo momento”, pontua Edilson Baldez, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (Fiema). 

Força estadual

Os empreendimentos aeroespaciais são complexos, com tempo de retorno de investimento superior a empreendimentos imobiliários, por exemplo. “A classe empresarial maranhense e o governo do estado do Maranhão têm feito a sua parte”, afirma o secretário da Indústria, Comércio e Energia do MaranhãoSimplício Araújo

Existem, no entanto, obstáculos reais a considerar. “Acho que são poucas empresas e empreendedores brasileiros que hoje podem se habilitar a esse mercado espacial”, admite Simplício. 

As soluções de negócios nesse segmento apontam para parcerias internacionais, privadas ou públicas, acadêmicas ou comerciais. Não são possíveis bairrismos ou opções ideológicas. Em resumo, são investimentos para empreendedores com maturidade, visão ampla e acurado senso de risco e oportunidade.

Confira a cobertura do lançamento do Amazônia-1: