O poder das mídias sociais para sacudir o establishment

O que começou como um grupo de discussão fez uma bagunça em Wall Street.

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As mídias sociais estão cada vez mais poderosas, e Wall Street e nem mesmo os analistas estavam preparados para isso. Não dava para imaginar que o poder das mídias sociais fosse capaz de colocar de joelhos uma gestora de investimentos de primeira linha. 

Em 2012, Jaime Rogozinski, um consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ficou entediado com as opções tradicionais de investimento recomendadas para pequenos investidores. Então, ele criou o fórum WallStreetBets para reunir pessoas dispostas a colocar dinheiro em operações arriscadas. 

Esse fórum foi crescendo até explodir em 2019, quando grandes empresas de corretagem dos Estados Unidos pararam de cobrar taxas por transação de seus investidores. Hoje, o WallStreetBets tem mais de dois milhões de membros. E esse monte de nerds de fórum de discussão na internet passou as últimas semanas dando ordens de compra em Wall Street

A GameStop, empresa varejista de jogos de videogame, se tornou um dos assuntos do momento: o WallStreetBets, usando aplicativos de corretoras como o Robinhood, organizou-se para valorizar os preços da companhia, porque muitos grandes investidores estavam apostando que ela cairia. Desta forma, suas ações dispararam. 

Foram duas semanas intensas, em que ações de empresas ultrapassadas operacionalmente estiveram entre as mais negociadas, a normalidade parece ter voltado ao sul de Manhattan. A ação da GameStop — que virou símbolo da luta do pequeno investidor contra grandes fundos — caiu após valorizar 1.600% em janeiro.

A empresa chegou a valer US$ 24,2 bilhões. No dia 4 de fevereiro, houve queda de 30% — 90% em relação ao pico. Esse acontecimento não teve nada a ver com o que os analistas de investimentos chamam de “fundamentos” das empresas. Esses fundamentos são, como explica o Valor Econômico, “os requisitos básicos para se saber se ela é um negócio sólido, mas principalmente se tem potencial para ser maior e melhor do que é agora”. 

Também não se trata de Warren Buffett, mas sim de apostadores que utilizam nicknames para fazer uma rebelião contra o sistema financeiro, considerado, por eles, manipulado. Seguindo essa linha de pensamento, esses amadores criticam os chamados fundos de hedge que apostam contra empresas que consideram ruins. 

Ao contrário do óbvio — comprar a ação de uma companhia boa para ser sócio do negócio —, os investidores podem também lucrar com as que são supostamente ruins. Segundo o Valor Econômico, “faz-se um contrato de aluguel das ações pelo preço de hoje, na expectativa de que elas caiam para comprar mais barato, devolver ao dono e embolsar a diferença”. A estratégia é conhecida como “short selling” ou venda a descoberto e muita gente acha que ela faz parte do sistema “manipulado”. 

A GameStop seria mais uma vítima desse sistema montada pelos investidores de Wall Street. “E assim seriam também redes de cinemas atingidas pela pandemia, fabricantes de celulares tecnologicamente defasados e outros negócios em dificuldades”, diz o Valor.

Esses Robin Hoods da internet invadiram Wall Street com uma estratégia de “buy and hold”, mas em uma versão “meme investing”, que é quando o investidor compra essas ações maciçamente e fica com elas por tempo suficiente para forçar os fundos a ter que pagar um preço alto para honrar seus contratos e amargar o prejuízo.

A manobra pegou de surpresa gestores experientes. O sucesso incentivou os traders do Reddit a tentarem uma cartada mais ousada no mercado de prata — segundo eles, o mais “manipulado do mundo”. A ideia era comprar um fundo negociado em bolsa (ETF) atrelado ao metal, o iShares Silver Trust, e forçar a entrega física pelos bancos que atuam no mercado futuro de prata, num moment que os estoques estão baixos.

O preço subiu 11% no primeiro dia, mas caiu no dia seguinte após uma intervenção da bolsa de commodities de Nova York, a Comex.  No ano de 2020, em virtude da pandemia de Covid-19 — em que as pessoas ficaram em casa, interagindo pelas mídias sociais e tendo mais tempo e facilidade para investir o dinheiro —, o fórum WallStreetBets mais que dobrou de tamanho. Eram 1,8 milhão de pessoas. Neste ano, já ultrapassou 8,5 milhões. 

O movimento ultrapassou as fronteiras de Wall Street e chegou à Europa e ao Brasil. Acionistas se reuniram no aplicativo Telegram para defender a IRB. O balanço da resseguradora teve pontos contestados no ano passado por uma gestora, que se declarou vendida no papel. A empresa, que acumulou queda de 80% em doze meses, subiu quase 18%. A bolsa segurou a volatilidade com leilões — e essa intervenção gerou polêmicas. 

As reguladoras tiveram que assumir o papel de xerife de Nottingham — principal antagonista da lenda de Robin Hood — e vieram a público demonstrar sua preocupação. Jenet Yellen, secretária do Tesouro dos EUA, convocou uma reunião com as principais autoridades para discutir o assunto. Isso pode resultar em regras mais duras para fundos de hedge, pequenos investidores e corretoras.

Questões como a manipulação do mercado voltaram ao debate: os pequenos acusam os grandes de nunca serem punidos e, o mais difícil dos dilemas, a grande questão moral da venda a descoberto. Nesse contexto, chega-se a conclusão de que as mídias sociais são plenamente capazes de sacudir o establishment e o que começou como um grupo de discussão fez uma bagunça em Wall Street.