Governo de Joe Biden pode impactar o agronegócio brasileiro; entenda como

Mais comprometido com o meio-ambiente, Biden pode pressionar o Brasil para um agronegócio com mais políticas ambientais

Joe Biden, 46º presidente dos Estados Unidos (Foto: Reprodução)

O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou medidas de fortalecimento da agenda climática e ambiental. De acordo com o G1, para o Brasil, isso pode significar uma maior pressão para que o setor de agronegócio reforme medidas de combate ao desmatamento e fortaleça políticas nessas áreas.

Veja os possíveis impactos no agronegócio nacional com a nova gestão dos EUA: 

Pressão ambiental 

Especialistas avaliam que, como Biden é mais comprometido com a agenda ambiental do que o ex-presidente Donald Trump, o novo governo pode pressionar mais para que o agronegócio brasileiro fortaleça políticas nessa área. 

Em debate com Trump, no mês de setembro, Biden chegou a citar o Brasil, dizendo que haveria consequências econômicas significativas se o país não parasse de destruir a floresta. Raoni Rajão, especialista em gestão ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou que, enquanto diversos países do mundo criticaram as queimadas no Pantanal e o desmatamento na Amazônia, Trump se manteve em silêncio.

Agora, segundo Rajão, isso vai mudar, porque Biden já chega com uma agenda ambiental e climática forte. O especialista acredita ainda que uma pressão ambiental dos EUA poderia acabar ocasionando penalizações para produtos nacionais.

De acordo com Rajão, Biden tem uma posição diferente do Trump em relação ao multilateralismo e, por isso, ele deve voltar a fortalecer a Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma das funções dela é estabelecer regras para os mercados internacionais, como penalizações, se um alimento está contaminado, por exemplo.

Hoje, não existe nenhuma regra na OMC em relação a produtos que venham do desmatamento, mas isso pode mudar. Segundo Felipe Serigatti, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), é pouco provável que ocorra alguma penalização ao Brasil via OMC em relação a questões ambientais, tendo em vista que a entidade está enfraquecida há muitos anos.

Imagem do agronegócio

Serigatti, no entanto, está otimista e aponta que o Brasil deve aproveitar este momento para mitigar os problemas ainda existentes no agronegócio. O pesquisador disse que o Brasil deve aproveitar os recursos oferecidos para resolver os problemas do desmatamento, referindo-se à declaração de Biden que, durante o mesmo debate eleitoral, afirmou que levantaria US$ 20 bilhões para o Brasil não queimar mais a Amazônia.

Para ele, o grande desafio do agronegócio vai ser trabalhar para reverter a imagem negativa do setor, construída por declarações de líderes internacionais e nacionais.

Segundo o pesquisador, o Brasil precisa trabalhar para mostrar as características positivas como, por exemplo, a produção de grãos em que já foram adotadas técnicas de baixa emissão de carbono. Em relação à pecuária, de 2010 a 2018, foi feita uma recuperação de pastagens degradadas do tamanho do Reino Unido.

O presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, afirma que o Brasil é um grande protagonista da agenda climática e que, por isso, o retorno dos EUA ao Acordo de Paris, anunciado horas antes da posse de Biden, só traz benefícios.

De acordo com o consultor, a experiência de Biden como legislador o fez visitar diversas vezes o Brasil e isso faz com ele conheça a realidade do país.

Para Marcello Brito, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), o retorno de Biden ao Acordo de Paris é muito salutar. É um acordo do qual o Brasil faz parte, mas que não tem atuado muito. Não há saída para o país a não ser embarcar de forma mais séria nas questões ambientais, ou vai ficar na contramão.

Disputa pela China

Brasil e EUA disputam o maior cliente mundial na compra de grãos: a China. Durante o governo Trump, o agronegócio brasileiro aumentou as exportações para o país asiático, depois que a China praticamente parou de comprar soja dos EUA em meio à disputa que terminou com um acordo comercial em janeiro de 2020. Com esse acordo, a China adquiriu US$ 36,5 milhões em produtos agrícolas dos EUA apenas em 2020.

Serigatti afirma que EUA e China não irão parar de disputar por hegemonia no cenário global, ainda que as relações fiquem melhores com o governo de Biden. Além disso, o acordo entre EUA e China também não significa que o Brasil irá diminuir as suas vendas de produtos agrícolas ao país asiático no curto prazo.