Com a posse de Biden, Brasil terá que mudar de estratégia em relação aos EUA

Em Brasília, a intenção é retornar ao pragmatismo e colocar em cena elementos fixos e constantes entre os dois países, como comércio e investimentos

Foto: Reprodução

Nesta quarta-feira (20) se encerrou nos Estados Unidos o mandato de Donald Trump na presidência do país. O republicano comandou a Casa Branca, como o 45º presidente do país, por um período de quatro anos, de janeiro de 2017 a janeiro de 2021. Trump perdeu a tentativa de reeleição em novembro de 2020 —, mas o comando do líder de direita produziram profundos efeitos não só nos EUA como no mundo — e no Brasil, em particular.

Semelhanças na gestões de Trump e Jair Bolsonaro ficaram explícitas nos primeiros meses da pandemia de Covid-19. Ambos subestimaram a doença, culparam a China, apostaram em soluções sem eficácia comprovada, eram contra medidas de isolamento social que pudessem atrapalhar a economia e entraram em confronto com governadores. Trump, contudo, apostou em vacinas, enquanto Bolsonaro não a tornou prioridade.

Mudança de estratégia

A posse do democrata Joe Biden, 46° presidente dos EUA, levará o governo brasileiro a mudar de estratégia na relação com o país norte-americano. Será o fim da diplomacia presidencial, que teve como pilar a conformidade ideológica entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Em Brasília, a intenção é retornar ao pragmatismo e colocar em cena elementos fixos e constantes entre os dois países, como comércio e investimentos.

O líder brasileiro e Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do Brasil, fizeram insinuações de que houve golpe na eleição americana e, assim, têm sido muito mal vistos por empresários e diplomatas brasileiros e americanos. Com isso, o setor privado tem feito apelos para que Bolsonaro e o chanceler compreendam e aceitem que os ventos nos EUA mudaram, sob risco de afetar os interesses dos brasileiros.

A expectativa entre membros do governo e do setor privado é que seja possível concentrar a atenção em uma agenda convergente, apesar de até o momento o que se assista sejam as discordância e dissenção entre Bolsonaro e Biden. Além de comércio e investimentos, as concessões para a instalação da tecnologia 5G no Brasil permanecerá sendo pauta, que põe os os EUA e a China, os dois principais parceiros comerciais do Brasil, em lados opostos.

O diplomata Sérgio Amaral, embaixador do Brasil em Washington entre 2016 e 2019, afirmou ao Valor Econômico que será ruim para os brasileiros estarem no meio da disputa entre as potências econômicas em razão do 5G. Segundo ele, o Brasil será forçado a fazer opções enquanto não existem razões para optar por um ou por outro. Contudo, ele acredita que a política de Biden em relação à China será de menos tensão e mais eficiência.

Biden deve atuar com parceiros como a Europa para pressionar os asiáticos, sobretudo em temas ligados ao comércio. O diplomata explicou que, se isso vier a acontecer, reduz significativamente a pressão sobre o Brasil pela tomada de decisão em favor de um ou de outro. O Brasil espera ainda debater temas como segurança, combate aos ilícitos transnacionais e crime organizado, energia, ciência e tecnologia, agricultura e espaço.

Meio ambiente e mudança climática

O palpite dos meios diplomáticos é de que Biden levará o debate em relação ao meio ambiente e mudança do clima para todos os foros internacionais. Um diplomata brasileiro que atua em um posto no exterior, afirmou que essa é uma questão preocupante, uma vez que esse tipo de demanda às vezes se mistura com oportunismo protecionista de alguns para prejudicar o agrobusiness brasileiro, que é muito competitivo.

Segundo essa fonte, a máquina burocrática americana está ainda em compasso de espera para saber quais serão as prioridades, quem serão as pessoas da nova administração, não só nos níveis mais altos, mas também nos intermediários. Então, não tem nada acontecendo ainda ou indício. Em entrevista à Bloomberg, Araújo pediu “boa vontade” para Biden para que os dois lados façam um esforço de compreensão mútua.