Água se torna produto financeiro e ONU manifesta preocupação

Novo contrato futuro de água permite que compradores e vendedores negociem um preço fixo pela entrega de uma quantidade de água em uma data futura

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O mundo enfrentará um déficit de 40% de água até 2030. Isso é o afirma o principal relatório da Unesco para a sustentabilidade da água. As razões para tanto estão no aumento significativo do consumo próprio, de indústrias e por parte da agricultura. Assim como qualquer produto escasso, quanto maior a demanda, maior é o preço.

A água se tornou um produto financeiro na Califórnia, nos Estados Unidos, assim como o ouro, o petróleo e outras commodities negociadas na bolsa. Alguns especialistas defendem que, se bem utilizado, este mecanismo financeiro pode ajudar no uso mais eficiente da água. Mas outros consideram errado negociar um recurso tão importante à vida.

O objetivo do projeto é fornecer aos produtores agrícolas, comerciantes e municípios a possibilidade de fazer hedge sobre a disponibilidade futura de água. Ou seja, os contratos futuros ajudariam usuários de água a gerenciar os riscos e melhor equilibrar as demandas concorrentes de abastecimento e demanda em meio à incerteza que secas severas e inundações trazem para a disponibilidade do produto.

O novo contrato futuro de água permite que compradores e vendedores negociem um preço fixo pela entrega de uma quantidade de água em uma data futura. A criação dos contratos foi anunciada em setembro, em meio aos incêndios na costa oeste dos EUA e com a Califórnia sofrendo seca pelo oitavo ano.

ONU manifesta preocupação

O especialista da ONU em água e direitos humanos, Pedro Arrojo-Agudo, divulgou um comunicado distribuído pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, manifestando preocupação de que isso poderá atrair a especulação de financistas que passariam a negociar água como outras commodities. Para ele, não é possível valorizar a água como se faz com outras commodities comercializadas.

O especialista afirma que a água pertence a todos e é um bem público. Segundo ele, está intimamente ligada a todas as vidas e meios de subsistência, além de ser um componente essencial para a saúde pública. A preocupação é maior porque a água já está sob extrema ameaça com a população crescente, demandas maiores, grave poluição da agricultura e da indústria de mineração e impacto das mudanças climáticas.

O direito humano à água potável foi reconhecido pela primeira vez pela Assembleia Geral da ONU e pelo Conselho de Direitos Humanos em 2010. Neste cenário, a notícia de que a água será negociada no mercado de futuros de Wall Street mostra que seu valor, como direito humano básico, segundo a ONU, está sob ameaça.

Investimentos de longo prazo

O banco suíço UBS sugere investimentos de longo prazo em água, que se torna cada vez mais escassa em diferentes partes do mundo. O banco afirma que muitos países enfrentam crescentes desafios de escassez de água, enquanto outros têm abundância.

O UBS ressalta a projeção de que 1,9 bilhão de pessoas globalmente em 2010 já vivia sob ameaça de falta de água, e o número deve aumentar para entre 2,7 bilhões e 3,2 bilhões até 2050. Para a instituição, a necessidade de otimizar a oferta de água representa um caso promissor de investimento na cadeia inteira de valor envolvendo o produto.