Modelo de trabalho vai mudar no pós-pandemia

Meio híbrido de trabalho se destaca como tendência para 2021

A pandemia veio para mudar as formas de trabalho, e o novo coronavírus provocou transformações radicais no modo como se desenha o mercado. Em recente artigo para revista The Economist, o professor de psicologia da Wharton University, Adam Grant, afirma que o vírus vai transformar três conceitos relevantes do trabalho: a satisfação do colaborador (em meio ao crescente desemprego), a liderança ética e a confiança. Para ele, a crise da covid-19 pode inspirar um movimento em direção a um líder mais ético e compassivo. Os empregados demandarão isso. 

Outro tema que ganhará espaço em 2021 é a ressignificação dos espaços físicos de trabalho. Os ambientes serão abertos, sem divisões entre chefes e comandados e que estimulam o trabalho colaborativo. A tendência é que o conceito de escritório como “segunda casa” deixe de existir. Cada vez mais, esses espaços vão se transformar em hubs estratégicos de relacionamento. 

O CEO do GPTW Brasil, Ruy Shiozawa, explica, em entrevista ao Época Negócios, que há empresas que já avaliam a possibilidade de terem um escritório menor e vários pontos de apoio espalhados pelas grandes cidades. Esses pontos vão funcionar como ilhas estrategicamente distribuídas para que os funcionários possam fazer deslocamentos mais curtos e sem perder tanto tempo no trânsito.

Nesse novo cenário, o RH será obrigado a redesenhar os contratos e as políticas de home office que existiam até então. Segundo o Época, “alguns limites (como carga horária) e obrigações (como a necessidade de o colaborador trabalhar no escritório em intervalos determinados pela empresa) terão de ser considerados”. 

De acordo com uma pesquisa do hub de empreendedorismo global Founders Fórum,  55,2% das pessoas trabalharam mais do que o normal durante a pandemia. As empresas então passaram a buscar uma espécie de autorregulação, proibindo o início de reuniões antes ou depois de determinado horário ou mesmo “travando” o horário do almoço para qualquer assunto relacionado a trabalho. 

A cesta de benefícios também mudou. Cadeiras ergonômicas, computadores e ajuda de custo com internet ou energia se tornaram parte da política de benefícios, que tende a se tornar cada vez mais flexível. 

Durante a pandemia, a Microsoft Brasil ampliou os direitos, como a licença remunerada de 12 semanas para o colaborador utilizar como bem entender. No entanto, poucas pessoas utilizam o benefício, possivelmente com receio de se ausentar do trabalho. Para incentivar a adesão, a empresa reforçou a mensagem de que nenhum profissional é produtivo sem saúde mental e equilíbrio. 

A saúde mental é um tema que avançou durante a pandemia e se intensificará a partir do próximo ano, deixando de ser tabu. O diretor-executivo de Estratégia, Gente, Comunicação, TI e Digital da Suzano, Christian Orglmeister, afirmou que a tecnologia fez o líder se tornar mais humano. O gestor precisou conversar para saber como cada colaborador estava se sentindo. 

Houve também um reforço dos serviços de apoio psicológico, que migraram para o ambiente o virtual, além do treinamento de lideranças (para detectar casos de ansiedade e depressão dos colaboradores) e o convite a especialistas para abordar temas diversos,  como saúde mental, luto, violência doméstica e felicidade.

Há empresas que ainda vão manter o home office. Um exemplo é o Itaú-Unibanco. Quando a pandemia não completara nem cinco meses, o CEO dos bancos, Candido Bracher, gravou um vídeo informando que os cerca de 50 mil colaboradores em funções administrativas seriam mantidos em home office até o final de janeiro de 2021. Segundo o Época, “a decisão de postergar o retorno foi uma forma de tirar a ´espada da cabeça´ do comitê executivo responsável pelo tema e dar tempo hábil ao banco para desenhar estratégias”. Segundo a diretora de RH, Valéria Marretto é impossível voltar ao modelo anterior, porque a pandemia derrubou os tabus de falta de produtividade e baixo engajamento no home office. 

Até agora, no entanto, a solução que deverá ser adotada pela maioria das empresas é um modelo híbrido de trabalho, que vai permitir ao colaborador trafegar entre casa e escritório com a maior flexibilidade possível. 

Segundo reportagem do Época Negócios, essa prática com o trabalho remoto “forjou um colaborador com maior senso de autonomia, satisfeito com um modelo de gestão baseado em metas e resultados e com maior flexibilidade na gestão da rotina, características que serão exigidas pelos seus empregadores de agora em diante”.

A liderança também teve um saldo positivo. Muitos gestores tiveram que “desenvolver atributos como confiança, capacidade de comunicação e empatia para garantir a produtividade da equipe, em um cenário em que tiveram de lidar com funcionários em situações muito diferentes: do estagiário, que mora com os pais e se dedicou apenas ao trabalho, à mãe solteira, que faz malabarismo para conciliar trabalho e cuidado com as crianças”.