Estudo ganhador do prêmio Nobel pode ajudar leilões no Brasil

Segundo reportagem do Valor, estudo dos ganhadores do prêmio Nobel de economia pode ajudar os leilões no Brasil

Os americanos Paul R. Milgron e Robert B. Wilson, ganhadores do prêmio Nobel de economia

Premiados nesta segunda-feira (12) com o Nobel de Economia, os americanos Paul R. Milgron, de 72 anos, e Robert B. Wilson, de 83, professores da Universidade de Stanford, fazem um estudo sobre a melhoria da teoria e invenções de novos formatos de leilões. 

Segundo reportagem do Valor Econômico, o trabalho deles tem uma especial importância para o Brasil, “que tem uma extensa agenda de concessões e privatizações nas quais uma sólida construção a partir das teorias desses economistas pode redundar em melhores resultados para o setor público e para os usuários dos serviços”.

Em entrevista ao Valor, Diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, João Manoel Pinho de Mello, ressalta a importância da ponte que os dois fizeram entre uma teoria econômica sólida e a aplicação prática. 

Para ele, o que é mais notável é que a teoria dos leilões é um campo razoavelmente sofisticado e complexo –  algebricamente e do ponto de vista analítico – e os dois professores conseguiram transformá-lo em conceitos simples e aplicáveis a casos reais, tanto para os desenhistas de leilões como para participantes de leilões. Segundo o diretor do BC, isso tem aplicação importantíssima no Brasil e sua agenda de concessões e privatizações. 

Segundo o Valor, a teoria dos leilões tornou-se uma ciência rigorosa e aplicável, que trabalha conforme o objetivo de quem está vendendo o ativo, “por meio de desenhos como o leilão ascendente simultâneo, em que os participantes disputam ao mesmo tempo vários objetos, mas com lances específicos para cada um deles e não um só para todo o lote, melhorando o interesse pelo leilão. Outro mecanismo é o leilão de segundo preço, no qual o vencedor paga o segundo maior valor lançado na disputa”. Para Pinho de Mello, o Prêmio Nobel está atrasado em pelo menos 10 anos. 

O sócio e economista-chefe da StoneCo e professor da PUC-RJ, Vinicius Carrasco, que foi assistente de Milgron em Stanford, explicou ao Valor que os dois os ganhadores são protagonistas de uma geração que transformou a teoria dos jogos e particularmente leilões em algo ortodoxo e mainstream. 

De acordo com ele, o que Milgron e Wilson desenvolveram é sem dúvida aplicável aos inúmeros ativos que se está pensando em vender, mas, no caso do Brasil, antes de bons desenhos de leilões, o país precisa resolver problemas de risco regulatório, como, por exemplo, o caso da expropriação da concessão da linha amarela pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Esse problema acaba afetando a atração de participantes, um dos princípios de sucesso de leilões dos dois premiados. 

Carrasco afirma ainda que o trabalho de Wilson e Milgron será muito útil para os leilões de 5G no Brasil e podem ajudar também em áreas como energia e saneamento básico.

O economista Aloísio Araújo, professor emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e da FGV, reforça a questão da aplicação prática. O especialista afirma que há uma grande complexidade envolvendo um desenho desse tipo e diz que o Brasil já tem algumas experiências baseadas nessas teorias, como o Tesouro Nacional, mas ainda se faz necessário um avanço.  

Araújo afirmou ao Valor que “a teoria de leilões tem muitas aplicações para a agenda brasileira de concessões e privatizações”. Ele comenta que esse ferramental teórico também tem sido desenvolvido por pesquisadores brasileiros como o economista Paulo Klinger. Isso permitiria um melhor desenho para licitações das áreas do pré-sal. 

Segundo a diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura (Ceri) da FGV, Joisa Dutra, em entrevista ao Valor, o Brasil tem usado mal o conhecimento teórico sobre leilões produzido pelos autores. Os reguladores brasileiros não utilizam o arsenal teórico existente como fazem outros países. De acordo com ela, há uma falta de cuidado no desenho de leilões no Brasil. Isso resulta em problemas como atraso nos investimentos e falência das concessionárias. 

O secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, afirmou, também ao Valor, que o conhecimento teórico produzido pelo vencedores do Nobel já têm sido utilizado nos modelos de concessão e privatização construídos no governo. Para ele, a premiação mostra a importância de trazer para o mundo real o conhecimento produzido na academia.


O presidente do Insper, Marcos Lisboa, diz que o trabalho dos pesquisadores trouxe sofisticação aos leilões, determinando que a forma como são realizados provoca reações nos agentes e leva a diferentes resultados.