WhatsApp vira ‘aplicativo de entrega’ em periferias sem cobertura de delivery

Os comerciantes locais usam o aplicativo para informarem aos clientes os produtos e valores disponíveis nas prateleiras

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A desigualdade pôde ser notada abertamente com a pandemia do novo coronavírus. Diante das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), de manter o distanciamento social e sair de casa somente se necessário, ir ao mercado passou a exigir cuidados inimagináveis.

Para evitar aglomerações, as pessoas passaram a usar com maior frequência os aplicativos de delivery. Mas um quesito que deixa a desejar é a acessibilidade, enquanto as entregas sempre chegam na área privilegiada do estado de São Paulo, as periferias são quase esquecidas pelos fornecedores.

Pedidos via WhatsApp

A fim de solucionar o problema e fomentar entre os moradores a compra e venda local, os comerciantes arrumaram um jeito de fornecer pedidos dentro dos bairros sem cobertura de lojas. Desta vez, o aplicativo usado para realizar as encomendas foi o WhatsApp. Aplicativos como Rappi e iFood não atende a todas as regiões no extremo leste da capital.

De acordo com buscas realizadas via aplicativo, em setembro, na cidade Ipava, na zona sul da cidade, não é possível identificar a lista de mercado no iFood, já o Rappi está totalmente indisponível. Ao ser contactada, a assessoria do iFood não comentou e nem esclareceu o motivo de não cobrir esses locais. Em nova busca após o pedido de resposta, o app disponibilizou os serviços para a região. O Rappi não se posicionou sobre o assunto.

Por meio do aplicativo, o comerciante e proprietário da CT, César Lemos, passou a atender a clientela fornecendo informações como valor e itens disponíveis nas prateleiras. Assim, recebendo fotos enviadas pelo proprietário, os clientes poderiam fechar pedido.

Taxas do iFood

O comerciante cadastrou seu empreendimento no iFood, mas viu seus produtos aumentarem muito diante das taxas impostas pelo aplicativo. As vendas ficam cerca de 10% mais cars em todos os produtos, sem contar que apenas alguns deles entram para a vitrine de oferta. Via WhatsApp, Lemos cobra o valor de R$5,00 para entregar o pedido.

Segundo ele, hoje, 40% de suas vendas são por delivery. Com o início da pandemia e distanciamento social, ele decidiu entregar qualquer item disponível na loja pelo WhatsApp. A venda e as conversas pelo app são feitas em tom informal, com um “ar de amizade” e clientes tratados pelo nome.

Sem esperar por um cenário totalmente fora do comum, Israel Soares, que fechou sua unidade na região de Itaquera e abriu em um novo ponto, fez sua estreia em meio ao distanciamento social. Para manter ‘vivo’ o Hortifrúti Praça do 65, ele passou a atender e oferecer e divulgar seu negócio via telefone e WhatsApp. As redes sociais foram braço direito para o empreendedor.

Ele conta que uma de suas clientes tem idade avançada e um filho que contraiu o vírus e acabou sendo internado. Para ele, isso é significante, a senhora está sozinha e ele está atendendo ela. Ela não sabe mexer muito no WhatsApp, a primeira compra uma amiga que a ajudou, então, ele sempre liga para ela e pergunta se está precisando de alguma coisa. Leva de outros comércios se ela quiser também.

O professor do Instituto das Cidades na Unifesp e coordenador do Centro de Estudos Periféricos (CEP), Tiaraju D’Andrea, relata que são nesses detalhes do relacionamento da loja com o cliente que está o grande diferencial desse fenômeno, que se relaciona com a construção histórica dessas regiões.

Relação de confiança

As relações de confiança e pessoais ainda são fortes nas periferias. Nesses bairros populares, as pessoas se relacionam mais pelo fato de conviverem mais nas ruas. O WhatsApp cria uma relação mais pessoal e mais rápida e não necessita de intermediadores. É uma solução prática e que responde a uma necessidade histórica, que é o oferecimento do produto no domicílio, avalia.