Varejistas protagonizam cenário recorde de IPOs em apenas cinco meses

Entre abril e agosto, 16 ofertas foram montadas e devem movimentar R$ 27,3 bilhões

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Quando o Grupo Mateus anunciou no mês passado que ia abrir capital, muitos ludovicenses viram a iniciativa como exemplo de visão empresarial avançada e empreendedora. Apesar de ser algo raríssimo para uma empresa criada no Maranhão, esse movimento é natural, diante de um segmento cada vez mais competitivo.

O setor de varejo tem hoje a necessidade de se capitalizar. Significa começar a jogar o “jogo dos leões” e deixar de “brincar de gatinho”. Para isso, é necessário alcançar resultado significativo na bolsa de valores e usar o dinheiro dos investidores – e muito bem usado.

A pandemia incentivou grandes grupos do varejo a buscar recursos rapidamente. Várias empresas do ramo (e o Grupo Mateus é somente uma delas) vão fazer Ofertas Públicas Iniciais de Ações (IPOs, na sigla em inglês) no país.

Em apenas cinco meses, as empresas do varejo estão abrindo capital num ritmo frenético, num número que não aconteceu nos últimos dez anos. Vale lembrar que as operações nem estavam sendo avaliadas por gestores e analistas.

De acordo com o Valor, entre abril e agosto, 16 ofertas foram montadas (entre as já concluídas e em andamento) e devem movimentar R$ 27,3 bilhões. O valor supera o obtido entre os anos de 2005 a 2019, com movimentação de R$ 18,8 bilhões resultados de 17 IPOs, volume maior que o da última década.

Aponta-se a saída de vários sócios de algumas empresas e grandes fundos migraram para novos negócios afim de encerrar suas participações com os IPOs. O Valor também apurou, por meio de um levantamento a consultoria Varese Retail, que desde a primeira abertura de capital do setor, em 1940, com a oferta de Lojas Americanas, foram 33 IPOs, ou seja, atinge-se agora a metade do número registrado em 80 anos. Em comparação ao estado atual do mercado de construção civil, o volume é menor, o segmento lidera as aberturas de capital.

Estimativa de 40 ações negociadas na B3

O levantamento também apurou que o total de varejistas com ações negociadas na B3 deve passar de 24 antes de março para, pelo menos, 40, se todos os processos forem concluídos. Das operações (16), a D1000, QueroQuero, Grupo Soma e Pague Menos já foram realizadas, enquanto a Tok&Stok, Pernambucanas e Kalunga estão em andamento aponta apenas três, apurou o Valor. As operação ainda em andamento devem ser lançadas até o fim de 2020.

Alguns consultores avaliaram que o alto volume de operações, em plena pandemia que afetou o consumo, se justifica pela busca de investidores por empresas com foco em produtos essenciais, como supermercados, segmento “pet” e farmácias, e negócios digitais, mais resilientes. Mais da metade dos IPOs estão nessas áreas.

Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores relata que este ano tem sido sustentado pelo auxílio emergencial, que já ajudou muito esses setores; 2021 será bem mais difícil, mas mesmo sem o auxílio, essas empresas sofrem menos. O analista da Guide Investimentos, Henrique Esteter acredita que o excesso de liquidez no mercado aumentou a demanda por ativos de risco, mas há também um represamento das ofertas no varejo há anos. Muitos fundos que são sócios buscavam o IPO para o desinvestimento, mas não houve condições ou tempo hábil para a saída, e agora há.

Vinci Partners e Actis retiram suas ações

Quem deu retirada de ações da rede de fatias foi o fundo da Vinci Partners, que entre os anos de 2012 e 2017 investiu R$ 250 milhões na rede departamento Le Biscuit, retirando a fatia de 45%, além do private equity britânico Actis, sócio desde 2010 da rede paranaense de supermercados CSD, com retirada de 30%.

Segundo o sócio da Varese Retail, Alberto Serrentino, os IPOs estão saindo por falta de novas e boas histórias no varejo. Como há anos se vê em supermercados de capitais mais maduros. Não são ofertas em decorrência apenas dessa montanha de liquidez. O mercado está atrás de mais ‘cases’ no varejo, além da Magazine Luiza e Renner, em parte porque alguns ativos já encaminham para suas máximas históricas, e pela perspectivas do avanço do digital após a pandemia, o que também dá um fôlego maior a tudo isso.

Isso tudo acabou acendendo o sinal amarelo. Há algumas operações que não se esperava, fora do radar, dentro do discurso da digitalização, e outras para reduzir divida e até para pagar dividendo, declara o sócio de uma gestora. Para ele, no fim, a ideia é que mesmo com diluição, os fundadores mantenham o poder decisório. Parte dos recursos ainda será usado para pagar dividendos aos sócios da rede em 2019.