Entenda por que a Cielo levou um tombo histórico

Antes em um mercado oligopolista, empresa enfrenta competitividade

Em julho de 2015, a Cielo chegou a valer R$ 86,4 bilhões (cotação de R$ 31,90), mas hoje, está avaliada em R$ 13,5 bilhões (R$ 4,98). A empresa teve uma queda de 84%, que, embora impressionante, apenas acompanhou a queda do lucro. O lucro da Cielo foi de R$ 3,7 bilhões em 2015 para R$ 1,2 bilhão em março de 2020, tendo uma redução de 67%. 

Mas a que se deve essa queda? 

Para explicar a queda da Cielo, é preciso entender que antes, a empresa atuava em um mercado oligopolista, conseguindo impor preço. Agora, no entanto, não é mais assim; houve a chegada de concorrentes. De acordo com o Banco Central, existem cerca de 20 novas credenciadoras como, por exemplo, Stone e Pagseguro, que desafiam a soberania da Redecard e Cielo. 

Teoria dos Jogos 

Essa questão é melhor explicada a partir do livro ”Teoria dos Jogos”, de Ronaldo Fiani, em que o autor expica que há dois players: uma empresa que quer entrar no mercado, a desafiante, e a empresa dominante. Nesse jogo, a companhia dominante tomará suas decisões somente após saber como age a desafiante. 

O Valor Econômico explica que a desafiante começa com duas opções: a primeira é entrar no mercado e a segunda é não entrar. Caso resolva não desafiar a dominante, o lucro dela continuará o mesmo. 

A desafiante não terá lucro algum. No entanto, segundo o Valor, “se a desafiante entrar no mercado, a dominante terá duas alternativas: (i) lutar via guerra de preços e aumento de despesas com publicidade e comercialização de produtos; ou (ii) ´acomodar´, cedendo espaço para a entrada da desafiante, com o objetivo de evitar a queda abrupta de sua margem”. 

Na alternativa de luta, o lucro da dominante cai de R$ 10 milhões para R$ 2 milhões e a desafiante inicia com prejuízo de R$ 1 milhão. Já com a acomodação, o lucro da dominante será de R$ 7 milhões, enquanto a da desafiante será de R$ 3 milhões. O equilíbrio é a estratégia acomodar. 

Ainda segundo reportagem do Valor, nessa acomodação, “a dominante terá lucro menor do que o do início do processo (R$ 7 versus R$ 10), mas bem melhor se adotasse a estratégia de luta (R$ 2). Já a desafiante também estará melhor do que se lutasse pelo mercado (R$ 3 versus prejuízo de R$ 1). Esse ponto, no qual não interessa a nenhum player se mover mais, chama-se equilíbrio de Nash”.

A Stone e a Pagseguro são desafiantes. A Cielo, dominante. Um mercado oligopolista se transformou em competitivo. Com a entrada das desafiantes de forma agressiva, a Cielo não pôde adotar a estratégia da acomodação e partiu para a tática da luta, ou seja, a pior alternativa. O preço passou a ser decidido pela interação entre demanda e oferta, e os players perderam poder de impor preço. 

Dois cenários

De acordo com o Valor, existem dois cenários daqui para frente. O lucro da Cielo continuará caindo se o mercado de credenciamento se transformar em um mercado competitivo. Mas, se os novos desafiantes não tiverem como permanecer lutando, o lucro da Cielo pode se estabilizar em um cenário competitivo menos acirrado. O certo é que a empresa não vai mais retornar ao patamar de 2015.