Das roupas baratas ao e-commerce, como a Forever 21 foi do auge à falência

O pedido encerra meses de especulação sobre a continuidade das operações da empresa, que chegou a ficar sem caixa para comprar roupas e repor os estoques

Embora tenham contribuído para o sucesso da varejista Forever 21 durante anos, as peças lançadas rapidamente a preços baratos também foram uma das razões para a sua queda. Sua falta de visão para as mudanças no consumo e para o avanço do comércio eletrônico levaram a empresa a dificuldades e a varejista americana de moda informou neste domingo (29), que vai entrar com pedido de recuperação judicial nos EUA. 

O pedido encerra meses de especulação sobre a continuidade das operações da empresa, que chegou a ficar sem caixa para comprar novas roupas e repor os estoques em loja. A varejista, que não é cotada em bolsas e não informou números da operação, disse que vai buscar maximizar os resultados das lojas remanescentes nos EUA. Ela atua no Brasil desde 2014, negócio que deve ser mantido.

O caso da Forever 21 é o mais emblemático das mudanças de hábitos dos consumidores nos Estados Unidos e no mundo. Com lojas gigantes em espaços de destaque, como a Times Square em Nova York, em menos de seis anos, a empresa foi de sete a 47 países, o que aumentou a complexidade do negócio. 

No entanto, com o avanço do comércio eletrônico, os shopping center e grandes lojas de departamento sofreram com a queda de visitas e vendas. Apenas este ano, cerca de 8.200 lojas fecharam nos Estados Unidos, mais do que as quase 5.600 unidades fechadas no ano passado no país, de acordo com uma pesquisa da Coresight Research.

O número de unidades fora de operação esse ano pode chegar a 12.000, segundo o levantamento. A queda da Forever 21 não afeta apenas a companhia. Muitas de suas lojas estão localizadas em shopping centers mais distantes e de menor qualidade, disse Jon Goulding, executivo da consultoria Alvarez & Marsal, que está liderando o projeto de reestruturação da empresa para a New York Times.

Esses foram justamente os shoppings que mais sofrem com a crise do varejo nos Estados Unidos e já perderam outras lojas âncora importantes, como as lojas de departamento Sears ou Macy’s. Apesar do cenário devastador, é só o começo. Um relatório do UBS acredita que mais de 75 mil lojas devem fechar na América do Norte entre 2019 e 2026.

Fast fashion

Ao lado da Zara e da H&M, a Forever 21 cunhou o termo fast fashion. Ao invés de oferecer roupas novas em coleções, a cada mudança de estação, a empresa lança novidades a um ritmo frenético. No entanto, a empresa já não é a mais rápida do segmento. Varejistas como Asos e Fashion Nova, voltadas para o consumidor digital, lançam novos modelos ainda mais rapidamente.

Consumidores mais jovens se voltam cada vez mais a bens e marcas que afirmam a sustentabilidade como valor, disse Wendy Liebmann, diretora executiva da consultoria WSL Strategic Retail, em entrevista ao New York Times. Segundo ela, a Forever 21 colocou suas apostas na noção de que fast fashion iria continuar do mesmo jeito da última década, e que eles só precisavam estar nos lugares certos e criar a sensação de novidade, mas essa estética física e emocional não é mais o que o consumidor quer.

Em um relatório de 2015, a Nielsen apontou o crescimento da tendência da sustentabilidade entre os jovens. A pesquisa, que entrevistou 30 mil consumidores em 60 países, descobriu que 66% dos jovens está disposto a pagar mais por marcas mais sustentáveis. As marcas que demonstravam compromisso com a sustentabilidade cresceram 4% naquele ano, enquanto o mercado avançou menos de 1%.

O apelo pela sustentabilidade é só um dos muitos motivos, já que a modalidade de fast fashion continua forte para outras marcas. Concorrentes oferecem peças com uma qualidade ligeiramente maior por alguns dólares a mais. A rival da Forever 21, H&M, apresentou crescimento de 10% nas vendas no primeiro semestre do ano. A companhia não tem lojas no Brasil.