A influencer Gabi Cattuzzo perdeu patrocínio com empresa de jogos por responder a comentário machista nas redes sociais e levantou uma discussão sobre assédio no mundo dos games

Letícia Höfke

“Lugar de mulher é na cozinha”. Para alguns, essa frase pode parecer antiquada, porém, nos jogos online, é algo comum de ser ouvido por mulheres que tentam ocupar o seu espaço em uma das maiores indústrias do mundo, conforme relata a autônoma Paola Evangelista

“Muitas vezes acontece de eu entrar em uma partida e apenas por ser mulher, os outros do grupo abrirem uma votação pra me expulsar da equipe. Já ouvi diversos tipos de coisas absurdas, como ´lugar de mulher é na cozinha´, ´vagabunda´, entre outros xingamentos piores”, diz ela. 

No mês passado, o assunto ganhou as redes sociais após a influenciadora de games Gabi Cattuzzo, conhecida por seus vídeos de game stream, responder de forma polêmica comentários com teor sexual em uma foto sua no Instagram, comparando homens a lixo. 

A posição da streamer desagradou a Razer, empresa de hardware que a patrocinava, e grande parte de seus consumidores, de modo que ela perdeu o contrato. Após a polêmica, mulheres e garotas gamers foram ao Twitter mostrar sua indignação com a hashtag #SouMulherSouGamer, criada pelo portal Geek & Feminist, em que relataram casos vividos durante partidas online. 

Uma delas foi a social media Karina Gomes que afirma que os homens dos jogos sempre a tratam diferente quando percebem que ela é mulher. “Eles ficam te assediando, querendo uma namorada, ou ficam com ódio, te xingando de várias coisas. Uma vez, eu tava jogando uma rankeada no Paladins e havia uma outra garota no time adversário, o garoto do meu time, sem saber que eu era mulher também, falou ´Já ganhamos, porque mulher não sabe jogar e só atrapalha. Fiquei muito triste em ouvir isso e perdi o total a vontade de jogar´”, conta ela. 

A streamer Iasmine Ribeiro, mais conhecida nas redes como Estelar, também relatou casos parecidos “Já ouvi comentários deploráveis como por exemplo, que mulher tem que lavar vasilha, que mulher tem cérebro menos desenvolvido para jogos, que mulher é apenas depósito de esperma. Já me chamaram de vagabunda porque errei uma skill. Enfim, a lista é extensa”.  

Protegendo-se do assédio 

A tática que as garotas gamers usam para poder jogar sem serem discriminadas são diversas. A mais comum delas é o uso de nicknames masculinos ou unissex para que não sejam menosprezadas por outros membros da equipe. “Eu nunca me identifico e sempre digito com pronomes masculinos caso precise me comunicar. Meu nick é sempre unissex para evitar que me identifiquem e me menosprezem caso erre alguma jogada”, diz a estudante de Farmácia Thamires Maria.  

Já nos jogos em que é necessário se comunicar através de microfones, algumas mulheres preferem não liga-los. “Sempre que jogo deixo o mute ligado, sempre. Não consigo jogar sem mutar as pessoas porque fico com medo”, relata Karina. 

Falta de oportunidades 

A misoginia entra em contraste com a realidade do cenário. Segundo dados da quinta edição da Pesquisa Game Brasil (PGB), 75,5% dos brasileiros jogam games eletrônicos nas mais variadas plataformas. Desta porcentagem, 58,9% pertence ao gênero feminino, o que indica que as mulheres são a maioria entre os gamers brasileiros.

Contudo, muitas mulheres ainda não conseguem crescer nesse meio pela falta de receptividade. “A partir do momento que alguém sofre críticas e ameaças constantes dentro de determinado ambiente, acaba criando aversão àquilo. Fico feliz em ver que existem mulheres ganhando fama e reconhecimento por serem gamers hoje em dia, mas, infelizmente, a gente sabe que dentro dos jogos o tratamento é diferente”, conta a estudante de Jornalismo Julia Marques dos Santos

“As mulheres estão sempre sujeitas a zoação, mesmo quando são as melhores naquilo que fazem, e isso já mostra menos oportunidade. Ninguém quer fazer um time profissional com mulheres sem ser com outras mulheres, e um time unicamente feminino é visto como um time fácil de vencer porque acreditam que garotas não tem habilidades se igualarem a um time masculino”, relata Thamires.

Situações como estas motivam a existência de campeonatos de e-sports – termo usados para as competições profissionais de jogos eletrônicos – exclusivamente femininos. Eles não são vistos como ideais, mas sim como uma alternativa para o crescimento das mulheres neste meio ainda considerado masculino, e uma oportunidade para o surgimento de novos talentos.