Confira o balanço da Smart City Expo Curitiba 2019

Cidades inteligentes, futuro das cidades, inovação e tecnologia: confira tudo o que está foi discutido na edição brasileira do maior congresso de smart cities do mundo

Os dois dias da Smart City Expo Curitiba 2019 consagrou a feira como um grande espaço de debate de teorias e exemplos de práticas no universo de inovação presente no tema das cidades inteligentes. Nesta segunda edição brasileira do maior congresso do tema no mundo, o evento teve 26 patrocinadores, 110 empresas apoiadoras e 6.790 inscritos na feira – número 30% maior que o do ano passado e que supera a expectativa dos organizadores.

Segundo Roberto Marcelino, diretor do iCities, a qualidade de conteúdo do congresso favorece que um grande universo de pesquisadores possa interagir com esse mercado. Isso acontece através da promoção deste contato com iniciativas concretas, que podem ser reproduzidas.

Iniciativas governamentais endossaram esse discurso. O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), assinou a intenção de zerar o ICMS e o IPVA para veículos elétricos. Já a Prefeitura de Curitiba lançou um novo aplicativo oficial – o Curitiba App – que agrega mais de 600 funções, antes dispersas em locais diferentes.

PRIMEIRO DIA DE EVENTO

As palestras do primeiro dia focaram em debater os desafios de inserir os cidadãos nos conceitos de smart cities e como superar os desafios da realidade. Ana Clara Fonseca, diretora da Garimpo Soluções e doutora em Urbanismo pela Universidade de São Paulo – um dos grandes nomes do dia -, apontou que a grande concentração populacional e a desigualdade econômica e social são alguns dos desafios para as cidades, principalmente quando há cenários de efervescência nos grandes centros versus o alto custo de vida.

“As plenárias do primeiro dia confluem para uma mesma retórica: de que é essencial para o melhoramento das cidades a adoção de processos participativos. “O engajamento à pauta ‘cidades’ leva ao senso de pertencimento, e isso vai do micro ao macro”, explicou a pesquisadora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Ana Carolina Benelli.

Os debates sustentaram que é preciso interação para inovação e não há uma cidade inteligente sem a conexão de empresas, governo, universidades e sociedade. A transparência nos dados e informações do poder público foi apontada como fator crucial para esse processo participativo. A assessora de Governo Aberto da Prefeitura Municipal de São Paulo, Ana Dienstmann. Afirma ter visto uma mudança de cultura dentro das gestões públicas e destaca o direito do cidadão em ter acesso aos dados. e conclui dizendo que o caminho da transparência é um caminho sem volta.

Cidades humanas são cidades inteligentes

As plenárias também convidaram os presentes a repensar a mobilidade urbana. O professor Eduardo Moreira da Costa instigou os convidados a pensar a mobilidade além do carro, mas no cenário da mobilidade para as pessoas.

A provocação foi respondida pelo Chefe de Estratégia e Inovação do Departamento de Transporte de Seattle, Benjamin de La Peña. Para ele, a vida nas cidades é mais difícil porque pensamos em uma lógica engessada, em apenas uma tecnologia: o carro. Para ele o mais interessante é aliar tudo que está ao nosso redor.
La Penã diz que precisamos repensar as infraestruturas. Pois a cidade é das pessoas, não dos veículos. Temos que nos adaptar à tecnologia ou é ela que precisa se encaixar as novas necessidades.

Paula Nader, da Grow, que é a união das inovadoras Grin e Yellow, também enxerga essa necessidade de mudança. Ela diz ter percebido que as startups de micromobilidade atingem patamares relevantes muito mais rápido do que os outros players de mobilidade. É importante reparar a mudança de comportamento. Ela pontuou ainda que isso acontece quando se pensa além do usuário. A mudança, que é cultural, e o uso das diferentes formas de mobilidade, só vai acontecer se levarmos em conta também os não usuários, sob a perspectiva que quem não usa o serviço. É um processo de troca e respeito ao espaço do outro.

Tecnologia e sustentabilidade

Iniciativas voltadas a projetos para cidades mais sustentáveis e resilientes também foram pauta do congresso. Um dos exemplos veio da Costa Rica. A assessora em sustentabilidade da primeira dama do país, Andrea San Gil León, mostrou as diretrizes do Plano Nacional de Descarbonização (2018 a 2050), voltado para a mobilidade sustentável, produção de energia sustentável para a indústria e gestão de resíduos.

Disse que houve dificuldade em identificar necessidades e a vulnerabilidade de cada município no cenário atual e futuro. A transformação urbana impacta nas mudanças climáticas. Para Andrea, os projetos às vezes não dão certo por falta de governança e adaptação aos atores locais. É preciso rastrear a competência dos diferentes atores e realizar alianças com o setor privado para promover mudanças nos hábitos da sociedade.

O palestrante Carlos Rath, da empresa norte-americana RS21 Resilient Solutions, falou sobre os desafios das mudanças climáticas e do entendimento do tema. Usamos apenas 1% das informações disponíveis. Ele explicou que é preciso atrelar o big data à necessidade de definição de estratégias de uso, inclusive para enfrentar as mudanças climáticas. O uso de dados pode ajudar a tomar melhores decisões nesses casos. Por meio de estudos utilizando determinadas tecnologias, pode-se otimizar as áreas verdes em grandes cidades. Do mesmo modo que traçamos cenários de como cidades serão afetadas por furacões nos Estados Unidos.

SEGUNDO DIA DE EVENTO

A atração mais esperada do segundo dia de feira era a palestra de Bibop Gresta, presidente da Hyperloop TT, empresa que desenvolve a tecnologia de mesmo nome que promete ser o futuro da mobilidade, com um trem que alia a velocidade de aviões a um modelo de negócio de cápsulas de transporte em terra – o trajeto de 80km entre Campinas e São Paulo, por exemplo, seria feito em apenas 6 minutos e 37 segundos. Cada cápsula possui 30 metros de comprimento e capacidade para transportar de 28 a 40 pessoas a velocidade de até 1.223 km/hora.

Outro nome bastante esperado na programação do segundo dia do Smart City Expo Curitiba era o do espanhol Josep Pique, ex-CEO da 22@Barcelona. Em doze minutos, tempo de sua explanação na plenária “Ecossistemas de Desenvolvimento Local e Inovação”, ele contou um pouco sobre seus doze anos de trabalho com a implantação de cidades inteligentes pelo mundo, em especial sobre a sua experiência em Barcelona.

Para Pique, as pessoas de uma cidade – e todos os seus talentos – são o que se tem de mais precioso, e é aí que está a “real inteligência” urbana. O especialista destacou que é importante, sim, enxergar os desafios urbanos em uma perspectiva macro. No entanto, tendo em vista essa real riquezas das cidades [as pessoas], pode ser mais interessante pensar micro.

O espanhol observa que em um ecossistema local, é preciso misturar governo, cidadãos e empresas. Utilizar o local para explorar algo novo. Ele analisou que em Barcelona foram unidas atividades mistas, de diferentes setores, em distritos. É preciso ter por perto comércios, universidades, poder público. Quando há integração, há mudança.

Menos “futurismo” e mais “mão na massa”
Um consenso entre os palestrantes do Smart City Expo Curitiba é de que cidades inteligentes não significam cidades tecnológicas. A máxima é compartilhada também pelo secretário de inovação da Prefeitura de São Paulo, Daniel Annenberg, que também esteve na plenária “Ecossistemas de Desenvolvimento Local e Inovação”.

Além de apresentar as inovações da gestão, Annenberg foi pragmático quanto ao tema cidades inteligentes versus tecnologia. Analisou a importância de contar com a tecnologia e também na importância de focar em soluções práticas que caibam na realidade das cidades. Para ele, é preciso mais “mão na massa” e menos “futurismo”.

Pensando o futuro de acordo com o presente

Brooks Rainwater, executivo sênior e diretor do Center of City Solutions da National League of Cities (NLC), apresentou o keynote sobre mobilidade centrada no homem na cidade do amanhã. Rainwater exaltou algumas iniciativas de mobilidade que estão funcionando em cidades como Barcelona, Singapura e Nova York e também falou dos desafios de implementação de um sistema inteligente de locomoção ao redor do mundo.

Para Rainwater, todos os meios de transportes criados até hoje foram pensados apenas neles próprios, não necessariamente levando em consideração como os usuários iriam utilizá-los. Para o futuro, o executivo alerta que é preciso projetar sistemas multimodais para desafogar o trânsito, ampliando o transporte público ou compartilhado.

E as mudanças climáticas?

O diretor de meio ambiente de Guayaquil (Equador), Bolívar Coloma, apresentou estratégias que a região está seguindo para se tornar uma cidade sustentável. Dentre os focos estão: ações para saneamento, gestão de resíduos, transporte e energia, gerenciamento do ecossistema, qualidade de ar e mudanças climáticas.

O pesquisador Hélio Lemes Costa, da Universidade Federal de Alfenas (MG), apresentou em primeira mão no evento o projeto Mobiliza 360, um curso online gratuito de produção de conteúdo 360 graus. A ideia deste grupo de pesquisa, chamado Laboratório de Políticas Públicas para Cidades Inteligentes,  é capacitar cidadãos a gravar os problemas enfrentados nas cidades – um meio de fazer denúncias sobre moradores de rua em situação de risco, mostrar estruturas públicas que precisam de reparos, entre outros. Costa enfatiza que para transformar cidades em estruturas mais inteligentes é necessária a inovação no setor público.