As dores de um mercado atacadista que amadurece

TAGIL OLIVEIRA RAMOS

A semana passada foi quente para setor de varejo e atacado do Maranhão. A elevação da temperatura ficou por conta de dois eventos: o seminário no Rio Poty Hotel promovido pela Secretaria da Indústria, Comércio e Energia (Seinc) e a coletiva de imprensa do Grupo Mateus.

Poderia ser uma simples coincidência os dois eventos caírem na mesma quinta-feira (17). Mas não foi. Se vistos da perspectiva correta, ambos acontecimentos traduzem as dores de um mercado que está amadurecendo.

Em minha experiência em São Paulo, acompanhei o movimento de vários segmentos de mercado durante anos, com muita ênfase na área de tecnologia. Uma das características do amadurecimento é justamente a demanda por informações mais precisas sobre o papel das forças que participam do jogo econômico, tanto do lado privado quanto do setor público.

Divisor de águas

No Seminário da Seinc (“Oportunidades para a Cadeia Produtiva do Atacado e Varejo Supermercadista no Maranhão”), o conferencista Luís Nassif, diretor da agência Dinheiro Vivo, percebeu a possibilidade de uma nova era para a economia do estado.

“O que vi de relevante é o trabalho que está sendo feito no Maranhão, de coordenação do setor produtivo, sociedade civil, setores da agricultura e governo do estado”, comentou. “Esse modelo pode frutificar”.

Este novo modelo, que inclui uma parceria transparente e produtiva entre estado e iniciativa privada, desponta como um divisor de águas para o ambiente maranhense. Essa “nova era” também foi enfatizada pelo secretário da Indústria, Comércio e Energia, Simplício Araújo (veja vídeo abaixo).

Saída do atoleiro

Achei muito interessante a palestra do ex-ministro do Planejamento Dyogo Henrique de Oliveira. O economista, que já foi presidente do BNDES, excitou os presentes com uma pergunta a respeito da recuperação da economia brasileira: “Vai dar certo?”

Na contramão do pessimismo peculiar dos especialistas da área, sua resposta foi positiva. “Neste ano, devemos ter uma ligeira recuperação, com o crescimento de 1% do PIB do país”, avaliou. “Mas cresceremos de 2,5 a 3,0% nos próximos anos”.

Recado para o mercado atacadista e varejista do Maranhão:preparem-se para a próxima onda de crescimento. Quem perder a oportunidade não vai ter com quem reclamar depois.

Luta do “Davi maranhense” contra vários Golias

A cerca de 9,1 quilômetros do Rio Poty Hotel, na sua sede administrativa, aconteceu a coletiva do Grupo Mateus, chamada para esclarecer a opinião pública sobre uma série de fake news que circularam por celulares em São Luís e no estado na semana passada.

Meio a contragosto, foi necessário expor o próprio presidente do Grupo, que torce o nariz para palanques e holofotes. Ilson Mateus explicou, de maneira quase didática, que os benefícios que sua rede usufrui também são usados por outras empresas do segmento atacadista. E que, no caso dos incentivos dados aos centros de distribuição, nem a empresa dele estava selecionada para receber os incentivos fiscais.

O que ficou muito claro no episódio é que o ambiente de negócios maranhenses precisa deixar de olhar apenas para o próprio umbigo e entender o contexto maior em que se insere. No cenário brasileiro, frente a uma luta de competitivos e cruéis gigantes do atacado e da logística, figura um “Davi maranhense”.

Na arena dos negócios, em que rugem Carrefour-Atacadão (faturamento de R$ 52,6 bilhões em 2017), Pão de Açúcar – Assai (R$ 48,4 bilhões) e Wall Mart – Bom Preço (R$ 28,1 bilhões), o Grupo Mateus (R$ 7 bilhões) precisa de garra e competência para fazer frente à ameaça dos gigantes.

Os competidores do Grupo Mateus: gigantes com faturamento de dezenas de bilhões de reais (Foto: Divulgação).

Superar o provincianismo
“Gente, estou pagando um preço muito caro por uma desinformação”, desabafou Ilson Mateus, num momento emocionado da coletiva. “Eu quero o mesmo que vocês querem, um estado melhor e com mais empregos”.

A verdadeira batalha não é entre as empresas maranhenses e nem por quem ganha mais isenção fiscal, mas contra o capital externo ao estado, que já olha com avidez para uma demanda que só tende a crescer nos próximos anos – e que precisa ser atendida a todo custo. O momento é de abandonar o provincianismo e pensar grande.