Estudo aponta disparidade socioeconômica na região da MATOPIBA

De acordo com especialista, há muito mais pobreza e desigualdade do que riqueza e bem-estar nas regiões da fronteira

Relatório solicitado pelo Greepeace com apoio da Climate and Land Use Alliance (Clua) alerta para desigualdade socioeconômica na região da MATOPIBA, fronteira agrícola entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Segundo o estudo, os efeitos econômicos que deveriam impactar positivamente nas riquezas e no bem-estar no locais onde são desenvolvidas as atividades não são homogêneas, mas concentradas.
De acordo com o pesquisador de dinâmicas territoriais em regiões não-metropolitana e professor da Universidade Federal do ABC, Arilson Favareto, há muito mais pobreza e desigualdade do que riqueza e bem-estar nesta região.
O estudo que deu origem ao relatório “Segure a linha: A expansão do agronegócio e a disputa pelo Cerrado”, foi iniciado em 2017 e levou em conta dados e indicadores socioeconômicos como taxa de mortalidade infantil e esperança de vida, emprego e renda, entre outros. Foi feita também uma análise qualitativa a partir de uma pesquisa de campo e 150 entrevistas.

Durante a pesquisa a região foi dividida em quatro. Um grupo de 45 municípios (13% do total) foi classificado como rico. Ali, a alta produção e produtividade se traduzem em indicadores sociais superiores às médias dos municípios dos Estados da região. São cidades como Barreiras e Luis Eduardo Magalhães, na Bahia, por exemplo. O problema é que estes são a minoria.
Favareto observou que as “cidades vizinhas destes polos, como Correntina (BA) e Formosa do Rio Preto (BA), têm altíssima produção, mas continuam do mesmo jeito de 20 anos atrás”, diz ele. Elas fazem parte do segundo grupo, os “municípios injustos” – 67 da amostra do estudo.

Ainda com Favareto, os municípios ditos “saudáveis” têm bons indicadores sociais, mas baixa produção. São 29. “Ali o bem-estar está mais relacionado com boa gestão municipal”, diz Favareto. Por fim, os pobres (196) são maioria. “A atividade do agronegócio na região, como é exportadora de bens primários, não gera cadeias econômicas locais”, segue Favareto. “E este cenário não é temporário porque se trata de uma questão de modelo de produção.”

“A dinâmica regional aponta para um município-polo, com produção e riqueza concentradas, e que gera um dinamismo que se traduz nas cidades-vitrine do agronegócio”, explica Favareto. “Mas isso não transborda”.

A MATOPIBA é considerada a grande fronteira agrícola do Brasil, sendo a principal responsável pela maior produção de grãos e fibras do país. A fronteia se estende por 73 milhões de hectares, abrange pelo menos 331 municípios, onde vivem 5,9 milhões de pessoas.
A safra de 2013/2014 resultou em uma produção de 18,6 milhões de toneladas de grãos. Até 2013/2024 a safra deve alcançar as 22,6 milhões de toneladas.
O PIB é de R$ 56 bilhões. “Esta produção é, contudo, bastante concentrada: os dados apontam que apenas 13 das 31 microrregiões produziam 76,9% do PIB total”, diz o estudo.

Adriana Charoux, que trabalha na campanha Amazônia do Greenpeace, afirma que “a intenção do estudo era aprofundar a análise sobre o impacto do modelo adotado na região para o desenvolvimento da Amazônia e do Cerrado. Ele mostra que a expansão das commodities no MATOPIBA é voltada para exportação, importante para a balança comercial, mas traz pouco desenvolvimento local”.

Entre 2013 e 2017, o Brasil perdeu área de Cerrado equivalente a 26 cidades de São Paulo, diz o estudo. “O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo. É uma caixa d’água, lugar de nascente de rios importantes como o Paraná ou o Tocantins”, lembra Adriana.